Olá, camaradas que serão a base pra retomada dos meios de produção! Shaq por aqui, de volta mais rápido do que ceis tavam esperando. A firma não para e hoje temos review de um dos discos mais esperados do ano. Como toda trilogia tem seu fim, Djonga nos apresenta Ladrão, a conclusão de uma escalada, diante dos nossos olhos, ao topo da cena, se utilizando de diversas frentes, sejam elas técnicas ou de oportunidade para tal, me acompanha que te explico. Bom, como lá na primeira review, se tu ainda não ouviu o disco (sério?) vai lá e ouve, é pré requisito, é bom dar uma lida nessas reviews aquiaqui e esse texto aqui… vai lá eu espero..

Agora que tu já tem o contexto necessário.. vamos às notas:

Tal como George Lucas e suas trilogias, o MC que colocou MG no mapa nos trouxe mais um disco baseado nas mesmas premissas que seus antecessores, com uso de muitas antíteses, punchlines e basicamente tudo o que deu certo antes, aparando as arestas e trabalhando ainda mais os aspectos técnicos que foram criticados (construtivamente). Ladrão é tudo que queríamos ter ouvido no debut do Djonga, mas não foi possível, seja pelo momento, pela maturidade ou, quiçá, recursos, porém, não me leve a mal, Heresia é um bom disco e vemos muito dele aqui, vejo-o como extremamente necessário para que Djonga pudesse desenvolver um trabalho coeso e bem amarrado como vimos agora. Seguimos naquele padrão que gostamos, dez faixas e 50 minutos, o MC mineiro começa, como nos trabalhos anteriores, com um ritmo bem acelerado e vai nos guiando, de forma que vamos entendendo e assimilando o conceito proposto, bem aquela parada de construir um “W”, com um começo quente, seguidos de duas descidas e uma subida para um término em alta.

Em seus antecessores, principalmente no primeiro, o uso das antíteses (exceto as visuais) foi um pouco exagerado, fato que foi corrigido em OMQQSD e aqui está no ponto, não temos comparações demais, há versos construídos como explicados no artigo do Ascencio, combinando paradigmas e sintagmas, sem o uso excessivo de preposições comparativas, utilizando muito bem, destaque pra faixa Leal, dobras vocais e auxílio de uma voz feminina (tal qual o Baco) pra preencher os tons que, se não ocupados, trariam uma sensação de vaziez ao som. Nas primeiras ouvidas, os refrões mais ‘cantados’ pelo MC me trouxeram a sensação de um esforço vocal excessivo, mas algo que, analisando com mais calma, e em outras fontes de som, passaram, ou me acostumei, o importante é que o Djonga não desafina e isso deve ser ressaltado.

Como já era esperado, a dualidade também está presente em Ladrão, assim como as capas anteriores e a faixa Geminiano (e muitas outras). Inclusive, aspas para uma pequena análise do nome do disco: por definição ladrão é aquele que rouba ou furta, mas também, o que é astuto e esperto. Ao meu ver, o conceito de ladrão, também representa uma dualidade, pois ao roubar algo que deveria ser seu por direito, apesar de um “delito”, representa uma maneira distorcida de se fazer justiça, tal qual Robin Hood, e Djonga expõe isso mais de uma vez no trabalho, como vemos na faixa homônima ao disco:

“Eu sou ladrão, os cara faz rap pra boy

Eu tomo dos boy no ingresso o que era do meu povo

Todo ouro e toda prata, passa pra cá

ou ainda em Hat Trick:

Irmão, quem te roubou te chama de ladrão desde cedo

Ladrão, então peguemos de volta o que nos foi tirado

Mano, ou você faz isso

Ou seria em vão o que os nossos ancestrais teriam sangrado

A composição do trampo é baseada em dualidades, oposições, ainda trazendo referências (não tão diretas) ao predecessor, a faixa Deus e Diabo na Terra do Sol, usa de deidades para ilustrar o eu lírico dos MCs, sendo Djonga deus e Ret o diabo (shots de leve para o Don L aqui, e referência ao Baco), essa faixa, particularmente, me pegou, pois, na primeira ouvida, tinha achado o beat chato e repetitivo, e o convidado meio fora do que pode realmente fazer, mas, olhando mais de perto e dedicando um pouquinho mais de atenção, a faixa tem seu valor e possui uma grande importância para o conceito do todo.

Uma das poucas coisas que não clicou pra mim foram algumas produções, mas nada que prejudique a experiência do disco. No geral, estas são bem diversas, porém, por serem assinadas em sua maioria pelo Coyote, parceiro de multi colaborações com Djonga, trazem uma “cara” muito característica a todas elas (tipo vários filhos dos mesmos pais). Obedecendo àquela estrutura de “W” as produções acompanham a atmosfera do MC de BH, ora aceleradas, lembrando de longe um trap bem leve, ora mais suaves e com refrões mais cantados.

Por fim, e não menos importante, a caneta. Como abordado por toda essa review, a conclusão dessa trilogia traz tudo de bom que Djonga provou que pode fazer, polindo tudo que não foi muito bem executado anteriormente, tecnicamente falando. O uso mais comedido das punchlines, bem como a variação de flows e a dosagem dos tons, nos entregam um trabalho muito bem pensado e, apesar do dito pelo próprio artista: “Se eu to fazendo igual é por que o mundo não mudou”, o disco soa parecido, porém distinto dos seus antecessores, mais refinado, mais coeso e mais técnico.

Em linhas gerais é bem isso mesmo, Djonga não surpreendeu por entregar um disco com muita qualidade, o que nos resta é especular o que o futuro pode nos trazer, inovando além dos conceitos apresentados nessa trilogia. Como eu disse há uns textos atrás, a evolução do artista o tira do lugar comum e abre espaço para coisas que não sabemos ainda que gostamos, e creio que o Djonga seja capaz de nos proporcionar isso num futuro não muito distante.