[sawvɪ sews lĩgʷistɐ dʊ Rɛpɪ tudʊ belezɐ]? Ascencio na área só pra voltar com os posts de Linguística (aclamados pela audiência), aqui nesse site maravilhoso. Pra quem não sabe, nem só de conhecimentos sobre o Chupa Cu de Goianinha (escutem o defecast) vive a minha sapiência, não senhor. Nas horas vagas, quando eu não tenho mais nada pra fazer, eu estudo Linguística. E, esses dias, lendo um artigo, tive uma ideia de discussão que talvez possa ser interessante para nós analisarmos algumas construções líricas que acontecem no rap. O último post nessa pegada parece que caiu bem no gosto de vocês, então, vem comigo.

Dentre as contribuições de Saussure (aka GOAT) para a Linguística, podemos destacar a dicotomia Sintagma vs Paradigma. O que é isso? Você me pergunta, e eu lhe respondo. Basicamente todos os elementos de nossa língua, desde o nível fonológico até o nível sintático, podem se combinar de duas formas:

O Sintagma

As dimensões, sejam elas da fala, ou da escrita, devem ocorrer sempre linearmente. Isso quer dizer que, por exemplo, quando um MC vai compor um som é preciso que ele combine uma sequência linear de palavras, uma seguida da outra. O mesmo vale para a fala, quando o rapper pega no mic suas barras são cuspidas uma após a outra. É impossível escrever ou falar duas coisas ao mesmo tempo. Parece que eu estou falando o óbvio, mas, essa noção é importante pra reflexão que vem adiante. Isso quer dizer que, sempre que falaramos em Sintagma,  estamos falando de uma combinação em presença entre dois ou mais elementos. Tipo:

Eu vejo rico que teme perder a fortuna

Enquanto o mano desempregado viciado se afunda

Quando o Edi Rock dropa essas linhas em “A vida é um desafio”, ele combina numa sequência linear vários elementos. Fonologicamente, cada sílaba é combinada linearmente por consoantes e vogais que se juntam para formá-las, por exemplo: teme > te-me> CV-CV (C para consoante, V para vogal). Morfologicamente, cada palavra é combinada linearmente por partes menores que carregam significados menores, visando constituir o significado geral de uma palavra, por exemplo: desempregado > des-empreg-ado. Sintaticamente, cada oração é combinada de forma linear por constituintes menores que formam uma sequência lógica na nossa mente, por exemplo: Eu vejo rico > Sujeito: Eu + Verbo: Vejo + Objeto Direto: rico.

Nota-se então que as Relações Sintagmáticas, ocorrem na horizontal e são combinações de presença e adição, desrespeitar essa combinação, em qualquer um dos níveis, prejudicaria completamente o entendimento da mensagem.

O Paradigma

Nos mesmos ambientes, tanto fala quanto escrita, a segunda relação diz respeito às associações mentais que fazemos entre elementos que escolhemos usar e todos os outros elementos que não escolhemos por questões contextuais, preferências sonoras, estilística, etc. Calma, vou explicar. Voltemos à linha do Racionais, o que aconteceria se eu resolvesse reescrever a composição?

Eu olho rico que receia perder a fortuna

Enquanto o cara desocupado dependente se complica

Em linhas gerais eu disse a mesma coisa, não disse? O que ocorre é que eu troquei algumas palavras por sinônimos. O fato deu ter feito essa troca representa que escolhi o verbo “olhar” ao invés do verbo “ver”, “recear” ao invés de “temer”, e assim por diante. Repare que várias outras palavras foram excluídas quando elegi a minha escolhida, eu ainda, por exemplo, poderia ter usado “enxergo”ou “observo”; Isso quer dizer que, na nossa mente, se entendermos a língua enquanto uma estrutura, todas as palavras possuem ligações umas com as outras, e, quando escolhemos uma, excluímos todas as demais de figurar em nossa sequência linear, o Sintagma. Essas ligações são regidas pelos mais variáveis critérios: significação (como eu fiz com os sinônimos), semelhanças sonoras (falaremos disso em breve), mesma classe gramatical, ou qualquer outro tipo de relação que seu conhecimento linguístico é capaz de estabelecer. Vale dizer que o Paradigma, assim como o Sintagma, também se estabelece nos demais níveis, mas, para não complicarmos muito, deixemos como está.

Nota-se então que as Relações Paradigmáticas, ocorrem na vertical e são seleções de ausência e de subtração, alterar suas escolhas, em qualquer um dos níveis, traria novos entendimentos, significados, interpretações ou escolhas estilísticas para o que está sendo dito.

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A dicotomia Sintagma vs Paradigma no rap

Mas, vamos entrar no rap de fato. Como vimos, existem dois eixos, um de combinação e outro de seleção. O processo de composição de um MC pode “priorizar” ora o Sintagma ora o Paradigma (e por que não ambos? Em raras ocasiões).

Quando um MC escreve um verso inteiro, sem se preocupar com rimas internas complexas e, apenas quando está no final deste verso, pensa numa rima que se encaixe a esse contexto, vemos que ele priorizou a combinação linear do Sintagma, ao invés da seleção sonora de palavras por ausência do Paradigma. Isso garante uma linha que tem grandes chances de ser coesa, mas, em contrapartida, possui uma rima fraca.

Acendo um cigarro, vejo o dia passar.

Mato o tempo pra ele não me matar.

Nesse verso do Brown em “Diário de um Detento” podemos notar uma coesão bem feita. Os elementos combinados em linha reta respeitam a ordem lógica e não são limitados por seleções de rimas internas, sendo assim, se torna fácil o entendimento da mensagem por trás destas palavras. No entanto, é pouco técnico, as seleções de sons para formar as rimas são nada complexas. Quando o MC não “empoe” a si mesmo a dificuldade de selecionar várias sons dentro do mesmo Sintagma, outras tantas combinações são possíveis, sem nenhum grande empenho, mantendo-se o mesmo sentido e até mesmo a mesma rima. Por exemplo, “passar” poderia, sem nenhum esforço, ser trocado por “andar”; o mesmo vale para “matar” que poderia, facilmente, ser substituído por “assassinar” (neste caso, soa um pouco estranho, devido a expressão cristalizada “matar o tempo” no início do verso, que estabelece um leve critério de seleção por meio de um paralelismo, mas, mesmo assim, o significado e o som se manteriam), tudo isso pois estes termos estabelecem semelhanças significativas e sonoras na estrutura da língua, como vimos antes.

A coisa muda quando o MC resolve priorizar a seleção de rimas possíveis (Paradigma), dentro de cada linha (Sintagma) que ele está cuspindo, seja por som, seja por significado, dentre outros critérios. Vamos falar do sonoro, neste caso, semelhanças sonoras complexas são facilmente abundantes, o difícil passa a ser manter um Sintagma que dê margem para uma “coerência semântica/estrutural”.

E de crimes, vão ter que por meu nome no topo da lista

Que eu sou fogo na pista, e num logo nazista

Note que temos dois Paradigmas com critérios sonoros, selecionando palavras terminadas em “-og(p)o” e “-ista” (e excluindo outras tantas) força Amiri em “Um dia de injúria” a alterar o seu sintagma, sendo que a sequência linear mais usual, que usaríamos no nosso dia a dia seria: “Vão ter que por meu nome no topo da lista de crimes”. Veja que esse “de crimes” é deslocado para o início do verso, criando uma construção talvez pouco comum, que possa dificultar o entendimento da coesão, tudo isso para que seja priorizado as seleção paradigmáticsa de semelhanças sonoras, nesse caso “-og(p)o” e “-ista”. Perceba que as escolhas de palavras se tornam mais difíceis se quisermos manter o mesmo significado das linhas, diferente do exemplo anterior.

Ressalvas importantes:

Um Sintagma gramatical não garante coesão. O que estamos teorizando é que, quando um MC não filtra suas combinações lineares de palavras (Sintagmas) com suficientes seleções sonoras (Paradigmas), há uma chance maior de que o que está sendo rimado passe a ser coeso mais facilmente. Eu posso criar sintagmas gramaticalmente corretos, mas que não façam sentido nenhum:

Eu bebi um carro e depois sentei no pulo

Porque queria nulo

Ou seja, não podemos ignorar o papel da semântica das palavras e suas exigências, que é fundamental.

E também, uma seleção de sons contínua qualquer não garante a técnica robusta ao MC. Não adianta ficar colocando rimas internas com “-ão”, “-mente”, entre outros.

Qual é a meta a ser atingida? Resposta: um MC que consiga priorizar ambos, que tenha tanto uma coesão plena em suas linhas, talvez fruto de uma Relação Sintagmática bem desenvolvida e de braços dados com a semântica, e também com Relações Paradigmáticas abundantes e complexas, sejam elas sonoras, significativas, dentre tantas outras. Conhece alguém ou algum verso que se aproxime disso?

Agora que vocês já estão manjando tudo sobre Sintagmas e Paradigmas no rap, vou deixar um wordplay do J Cole aqui, sintam-se a vontade para teorizar sobre o processo de composição do rapper com base no que discutimos hoje, se liga:

Keep it true like me, Cole you might be
Like the new Ice Cube, meets the new Ice-T
Meets 2 Live Crew, meets the new Spike Lee
Meets Bruce like Wayne, meets Bruce like Lee
Meets ’02 Lil Wayne, in a new white tee
Meets KD, ain’t no n**** that can shoot like me! BLAOW

Conseguem notar os Paradigmas propostos e os critérios de seleção estabelecidos? Quais?

Larga a sua teoria nos comentários. Por hoje é só, peace.