Salve seus laranjal do estado, suavidade? Desviando da maldade e seguindo o caminho do senhor eu acabei parando no WordPress na missão de revisar algo. Pela primeira vez não é uma review que faço pela demanda, sendo esse aqui simplesmente por ser de meu agrado. Por sorte ele é recente e pode parecer normal. O louco é que nossos amiguinhos usuários de rap também desviam da maldade, seguem o caminho do senhor e se você quiser parecem normais. Mas não são.

Eu como forte defensor do rap nacional sempre luto com unhas e dentes nos grupos de tizap pra falar que tem muita coisa boa nas áreas, costumam me responder que o ideal é nivelar por baixo. Ai que entra a anormalidade desses caras. Cactu é um coletivo formado por GÁBE, alã, Ganti, DudzNK. São necessariamente nivelados por cima, de forma quase desleal. Qualquer coisa advinda deles que seja o puro suco de arte (as vezes extraído do seco) é simplesmente o padrão do coletivo.

Lançaram um EP visual, episódico, de 12 a 15 de fevereiro. O episódio piloto, lançado dia 11, é um mini doc de 4 min, que pra quem tem o sexto sentido aguçado já avisa sobre o tiro na mente por vir. Recheado de plana plana plana, o doc é sobre a reunião dos 3 que rimam para o começo da produção do trampo e entretem razoavelmente.

O EP intitulado “Defensores da Moral e dos Bons Costumes” é um compilado de tudo que se espera do coletivo, desde que atendiam pelo nome PLANA: Beats densos e estrondantes, um refrão embrasante e letras que só enriquecem a cada ouvida; Isso quanto ao som. Por ser um EP visual, mostra muito do que já chamou bastante a atenção para eles: visuais lindos e bem editados.

O primeiro som é “Bendito os Cegos (Falando sobre a sala no sofá do mundo)”. Com um clipe no mínimo excêntrico, retrata os 3 MC’s em meio ao estúdio, palco, um sofá, um vaso de flor e por que não a insanidade?! Se eu discorrer sobre o conteúdo das letras esse vai ser o maior review que já fiz, e é o trabalho com menos faixas, então melhor não. Mas presta atenção nos seus ouvidos que a digestão é bem gostosa.

O segundo episódio do EP não tem o que a gente costuma chamar de clipe. Uma arte estática da cara do Brasil, na forma da família tradicional em sua sala, com quadro de Jesus e uma televisão. “Som pra pista parte 2 (Se preciso, retorne em 3019)”não é um som pra pista. Na TV repetimos a imagem de um consagrado do hip-hop que também não faz muitos sons pra pista. Num dos melhores beats do projeto, completamente ambientado e em sinergia com o visual e conteúdo, o título já adianta: Qualquer coisa volta pra ouvir daqui um milênio.

Na parte três, é conservada a imagem dos conservadores, com a única mudança sendo no conteúdo da TV. Todo defensor da moral e dos bons costumes tem alguns gostos em comum – como já foi alertado por Matheus Coringa – : Bundas e Rifles. Focando no rifle, já que é mais digno pro horário, a faixa é “fy_pool_day (O segredo está no chuveiro)”. Mantém uma linearidade nos versos dos 3 rappers, com exceção de uma ponte na parte de GÁBE, mas o refrão enérgico compensa.

As vezes mais é menos. Um ponto recorrente no projeto é que: os beats são lindos e densos, o que pode complicar para que você foque na letra; Pode muito bem ser intencional, já que a cada audição o trampo só cresce. O episódio finale é outro clipe, com uma estética que gira em torno da cor mostarda, gravado na cidade de Mostardas. GÁBE e alã já tinham provado que sabem trabalhar bem juntos com guitarras, no álbum que figura meu top 5 do ano passado, ANBU. Nomeada “Deus Macaco (com fogo no rabo)”, é recheada de guitarras e é a mais próxima do caos do trampo. O clipe ajuda na criação de urgência e adrenalina.

Defendendo toda a moral e bons costumes: é impossível discordar do conteúdo do EP visual; Defendendo a tese de que no underground temos futuras lendas que mereciam ficar ricas: é impossível discordar do conteúdo do EP visual. Consagra o quanto todos do Cactu seguem trabalhando e trabalhando junto nos últimos anos. Tal como o último som te passa uma urgência, o texto deveria te dar a urgência de conferir esse trabalho lindo de nomes emergentes. É recheado de conceito, boas produções, visuais fascinantes e tá banhado de qualidade em todos os níveis.

Avatar

Author: Andre Dourado

Rap Nacional é merda e eu sou o especialista das fezes