Existe uma brincadeira entre os fãs do Davzera que é o seguinte: De vez em quando, um certo alien desce na terra, cospe rimas, e depois volta pro seu mundo. Se você for no canal agora do Davzera, irás encontrar vários comentários do tipo. Isso se deve a fato desse MC ser extremamente “multidimensional” em seus temas de rima, ele abrange em poucos versos muitos conceitos empilhados de referências travestidas de punchline e isso é muito bom. Nos últimos dias esse MC baiano lançou seu aguardado EP “Vale do Silício”, e gente, o “alien” é um dos melhores da cena.

Primeiro, deixo logo aqui um desabafo: POR QUÊ LANÇAR UM EP COM SINGLES TODOS JÁ LANÇADOS? Acaba com a surpresa valendo, sorte sua que isso é muito bom, se não, eu iria pesar na sua mente Davi, to dizendo. Mas, voltando, Vale do Silício com certeza vai ser uma das melhores obras do ano. É inteligente, multidimensional mas ao mesmo tempo possui uma realidade mundana bem nordestina poética de ser. Ele consegue versar sobre luta de classes à versos braggadocious com uma naturalidade enorme. O trabalho que ele trás  sobre à materialidade/riqueza com a espiritualidade é algo suave e muito forte.

Nas músicas “Ouro24” e “Nagual”, Davi já fisga sua atenção. Os beats do Iksv e Baratapai são ótimos, trazem samples lindos e o MC cospe sujo. É muito bom pra quem é nordestino ouvir um MC que possui uma mentalidade típica da sua região, que trás uma vivência semelhante, eu como nordestino ouvindo isso aqui chapei,  bate um orgulho mesmo.

Em “Copos pro Alto” e “Anjos de Sniper” temos clouds básicos e typebeats corajosos, principalmente pro Davi que já foi acusado de ser guardinha por ter criticado o trap naquele lindo EP do Baco e Mobb (Direto do Hospício). Em Anjos de Sniper, eu curti pra caramba o verso do Drigs Triller e a métrica do Davi é bem cadenciada… ele pouco alterna a métrica nesse trabalho e é bem louco porque o flow dele não cansa. Victor Xamã em “Tropiqal” apesar de não ter vindo com tanto impulso lírico, não decepciona – afinal ele é o melhor Xamã desse país. É bastante lindo ver ele e o Davzera rimando, são dois MCs favoritos meus numa faixa, todo fã ama quando isso acontece.

Vale do Silício é dark, pessoal, sujo e com várias facetas. Já começa bem por ter uma capa linda (feita pelo Victor Xamã) e uma produção corajosa na qual não imaginava que o MC do Beirando Teto fosse tocar do começo ao fim. Transpirando underground nas 6 faixas, Vale do Silício trás a cara do rap baiano, é lírica de vários socos marginais.