E aaaaaaaaaaaaaaaae suas cantora pop que faz hit surfando no hype do ex-namorado morto, tudo beleza?

Ascencio voltou, prometi pro Cacique que seria mais ativo no site (além de revisar o que a equipe escreve) neste ano, e cá estou. Fazer a review de Swimming veio quando estava escrevendo para o top 10 de 2018 do site, e pude notar a importância que este projeto teve para mim. Tenho muita coisa que gostaria de apontar/comentar sobre esse CD, vou tentar fazer faixa por faixa, espero que gostem e leiam até o fim (ninguém mais lê textos grandes na internet, aparentemente).

Como diz o meu amigo Shaq, começando pela capa: a arte de Swimming diz muito sobre o álbum, como veremos, constantemente Mac diz ter sua mente nas nuvens e estar sempre muito alto, numa espaçonave, daí tiramos a porta do avião e as nuvens lá fora; entretanto, ele diz também ter seus pés no chão, daí tiramos seus pés sujos a mostra; o branco ao redor pode ser uma metáfora para representar o que ele mesmo diz sobre tirar coisa nenhuma do nada, tentando descrever um processo criativo suprimido por problemas psicológicos.

Explicada a capa, vamos para os sons. Mac abre seu álbum nos dando o tom do projeto como um todo, “Come Back to Earth” é uma mensagem de retorno, uma transição da inércia para o movimento, que podem ser metaforizados respectivamente por “se afogar” e “nadar”, e também interpretado como uma batalha para tomar o controle de sua mente, vencer os seus problemas. Vale dizer que não é uma mensagem de um ponto de vista vitorioso, o rapper assume que ainda está lidando com problemas e dificuldades mentais. A produção também entrega seu cartão de visitas, muitos sintetizadores, baixos marcantes, um lo-fi calmo e distante.

“Hurt Feelings” chega misturando no caldo da produção um pouco do trap, assim como dá continuidade a esta temática transitória, só que agora não se trata mais de uma mudança de postura, mas sim algo mais pessoal, mais sobre a personalidade de Mac, a qual o rapper afirma que sempre esteve em constante mudança. Com pitadas de bragga, ele dança por subtemas, sempre por meio de metáforas bem postas, como sua visão visionária, onde seus olhos ficam grandes e o mundo todo pequeno, por exemplo.

“What’s the Use” é um funkzão bolado demais, groovera e os caraio, com participação discreta do Titio Snoop. Mac, em entrevista, disse que gostaria que as pessoas se movessem de forma diferente ao ouvir esse som. Quem assina a faixa (no genius) é Pomo, mas segundo Malcolm, a linha de baixo mais bolada de todo o álbum foi fruto de uma contribuição instantânea e genial do Thundercat (que também chega numa ponte). Essa faixa é um bragga muito classudo, com vários lugares comuns da temática, mas, o que chama a atenção no vocal mesmo é o flow do MC, como ele mesmo diz:

“Yeah, okay we’re colder than the breeze/ But the breeze ain’t flowin’ like me, motherfucker hol’ up”

A primeira vez que ouvi “Perfecto” achei uma faixa gostosinha, sem maiores pretensões. Mas, quando você para pra analisa-la, nota que ela carrega aquela dualidade de quem sofre com problemas mentais, sobre, em certa medida, ir remediando uma dor que você sabe que é perigosa, mas prefere ignora-la, ao passo que esta sempre irá, aos poucos, aumentar e aumentar. A quarta faixa serve pra nos lembrar que, infelizmente, nem tudo está bem. Dessa vez, Mac se torna completamente passivo, ao ponto de, mesmo se ele se afogar, não irá ligar. Destaque para o “Outro” belíssimo no final dessa track.

O primeiro (e único) single de Swimming, “Self Care”, como o próprio nome já diz, se trata do cuidado próprio (ou amor próprio) que todos devemos ter para superar os obstáculos em nossas vidas. Aqui, em contraponto com a faixa anterior, Mac demonstra ter uma visão arguta de seus problemas e de sua vida, dando a entender que está ciente de tudo e que ficará bem. Gosto dos drums dessa produção e como eles criam uma levada gostosa pro Malcolm rimar em cima, aliás, boas rimas dele aqui. Na versão do álbum, além de dar início a uma sequência de três faixas, temos uma segunda parte chamada “Oblivion”, que conversa com essa temática também, uma sacada interessante.

A consequência de todo esse amor próprio é “Wings”, o refrão mais bonito do álbum. Em “Self Care” Mac diz que pode voar para casa de olhos fechados, e vemos que talvez ele possa de fato, usando suas asas.  Nesta música, o MC pondera sobre seus problemas pessoais, sobre não saber como lidar exatamente com seus relacionamentos, onde lança mão de boas metáforas. Temos mensagens positivas em diversos pontos da letra, embora ainda permaneça a presença de “algo ruim” que anda a seu lado, como se estivesse na espreita.

Seguindo as imagens temáticas de ascensão e subida, “Ladders” (escadas) complementa o que “Wings” (asas) vinha dizendo. De qualquer forma, temos que encontrar uma saída, sempre com os pés no chão, atentos. A sétima faixa trás boas linhas e uma boa entrega de Mac. A produção volta a ter um ponto alto de destaque, temos um instrumental dançante com metais em belíssimas pontes.

Muitas imagens se repetem neste projeto, as aquosas, obviamente, são as mais perpetuadas. Dentre outras temos: o mundo externo, uma barreira, o olhar, a queda, a solidão, cabeça nas nuvens, pés no chão; Em “Small Words” vemos a dualidade em tudo, toda aquela visão sobre estar bem, mas sempre existir algo que pode mudar isso, culmina aqui. Por exemplo: antes, Mac dizia que seus olhos cresciam e o mundo ficava menor, agora, o mundo é menor até ele não ser mais.

Destaque especial para a mudança do beat, no final desse som. O terceiro verso de Mac Miller é a parte que mais adoro de todo esse álbum, é o verso que mais me tocou e me salvou, de verdade. É lindo, é maravilhoso, escutem.

Em “Conversation pt 1” o beat bate pesado, e assim também faz o rapper de Pittsburgh. No meio de toda essa temática introspectiva, temos essa faixa pro nosso Malcolm dropar umas barras, mas não são barras como você está acostumado a ouvir, aqui as punchlines são substituídas por socos morais, saca? É um Mac calmo tentando analisar esse jogo de falsas pretensões e enganações, vendo tudo de sua espaçonave, já que ele não pertence mesmo a este lugar mundano.

“Dunno” é uma faixa calma que fala do relacionamento dele com Ariana, é bem fofa, te faz nutrir amor pelo que o casal poderia ser, mas aí você se lembra que a Ariana surfou na morte do ex pra fazer um hit pop, e todo o amor morre.

“Jet Fuel” é outra bela produção, a faixa tem uma pegada dancehall desde o sample de início do cantor Cutty Ranks. Outro refrão gostozinho demais, sample dancehall ditando um ritmo aconchegante, bons backing vocals como só o Mac sabe fazer e um bragga nojento, sujo. Além disso, ele se diz o GOAT. E sabe aquela nave em que ele se eleva? Ela nunca fica sem combustível.

A música mais linda do álbum, e também, a mais linda do ano pra mim: “2009” me dá a impressão de que, amarrando todas as temáticas abordadas pelo álbum, apesar de tudo, Mac estava lúcido sobre suas condições, sobre tudo que passou e tudo o que aprendeu, desde que se mostrou pra cena com KIDS. Essa faixa expressa todos os aprendizados do garoto Miller, como o próprio diz, ele já sabe o que está atrás da porta. E meus amigos, que produção maravilhosa com uma orquestra que dá um tom épico para a faixa, é simplesmente lindo.

Depois da morte do rapper a faixa final me deixa triste, “So it goes” dá uma noção cíclica do tempo, fala como tudo em sua vida parecia estar se repetindo. Dizem que o último stories dele foi um trecho dessa música. Nunca saberemos o que suas palavras realmente gostariam de dizer, e acho que ficar criando teorias sobre, principalmente com essa visão anacrônica de sua triste morte, é um tremendo desrespeito. Swimming tem seus momentos felizes, tristes, calmos, dançantes, esperançosos, descrentes; porque nada na vida é concreto, tudo é volúvel, tudo vai e volta, como a água. O principal é continuar nadando. Seja como for, o álbum termina de fato numa faixa melancólica, com muitos sintetizadores… parece aquele episódio aquático de Bojack, sabe? Talvez, eu vá assistir Bojack.

 

RIP Malcolm James McCormick.

One Reply to “Review: “Swimming” por Mac Miller”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.