Fala aí seus Crianças atrás dela, as saudades se tornam gigantes! O tal do BK lançou seu segundo álbum no último dia do tenebroso mês de Outubro, seguindo o Castelos e Ruínas, conhecido por muitos como o melhor disco dos últimos anos do Rap nacional, conhecido por outros vários como um dos mais repetitivos e monótonos dos últimos anos. Um pouco de sagacidade é tudo que o nosso chegado da lapa precisa pra unir os dois grupos, isto é, se pretende fazer com que o primeiro seja maioria, se a intenção for oposta, a Escola Baco de Singles 2018 fica pra lá.
Levando a sério a questão do tom, aquele que varia entre Krack e Kristo, buscou a mudança de longe, sério mesmo, DE LONGE. A capa, em oposição à estreia, é colorida, uma bela arte diga-se de passagem. Até ai, tudo no minimo lindo. Ao dar play, me questionei se eu havia pagado o Spotify, e francamente, todos sabem que lembrar das dívidas nunca é agradável.
A primeira faixa, Novo Poder, tem uma única função: Estabelecer o tom do álbum em sua integridade. A faixa, no instrumental, soa como um comercial de Call Of Duty, já na escrita, contém lampejos da genialidade que BK exibia enquanto seguia na sombra em conjunto com alguns wordplays, no mínimo, forçados. Mas, o que mais rege o álbum não é a vibe comercial, não é a variância de medíocre para excelente rapper, é a confusão. A questão óbvia e gritante é: PRA QUE ESSAS DOBRAS E ADLIBS DO CHS E DO AKIRA SE ELES NÃO ESTÃO NA MÚSICA?
Em seguida, com um instrumental gostoso à beça, o trabalho se nivela por baixo. O refrão de “Porcentos” atingiu um novo patamar, sendo mais “tumblr” que a carreira do Konai, também soa como mal-gravado, feito às pressas, proibindo o rapper de regravar. Com o objetivo de soar desesperado, exaurido, ou até indignado, as vezes em que o refrão é cantado em alta velocidade sai simplesmente como desagradável. Caso eu passasse a conhecer BK através dessa faixa, eu no mínimo concordaria para que ele recebesse pouco de fato.
A definição mais apropriada para o trabalho completo é um Sanduíche, um sanduíche maravilhoso feito com um pão de quarta categoria, na melhor hipótese. Na terceira faixa, Gigantes, começa o recheio. Meu encarecido amigo, meu encarecido leitor, meu leitor sem carinho, tenho que avisar: QUE RECHEIO FENOMENAL! Com participação maravilhosa de Juyé, o homem do Bloco 7 finalmente encontra seu jogo, com consistência.
Nas faixas seguintes, pode prestar atenção que vale a pena. Exóticos soa estranhamente como Rio da Ilusão, que o próprio escreveu em 2015. Rio da Ilusão, soa como um rapper carioca rimando solo deve soar, parabéns pela estética e escrita. Logo após entra aquela considerada por muitos a melhor do disco, Julius tem o famoso beat orgânico e classudo, tem uma quebra fenomenal da batida, passa a imagem de tudo citado na letra escrita cheia de técnica. Porém, nem tudo são flores, o refrão soa bizarramente como se ele cantasse “Get High” e não “guer-ra”.
Um novo fenômeno do rap surge, a faixa XARÁ, nosso chegado Abebe Bikila dedicou um título para sua alcunha, tanto a faixa quanto o rapper estão o fino da bola. Quem mais jogou muito nessa track foi o emergente KL Jay, ensinando uma galerinha a fazer scratches. Só um adendo: Não adianta forçar, não tem como forçar, “mostrar” e “pornográfica” nunca vão rimar.
Em Titãs, BK recicla a rima de “néctar”-“não é que tá” na primeira estrofe. Mas é um puta sonzão. Falando em coisas que pertencem ao passado e deveriam ficar lá, nas duas próximas faixas temos Baco Exu do Blues e uma Love Song, respectivamente. Outra coisa que devia ter morrido no passado é o pré-julgamento. Vivos, com um bom feat -sem gritos- de Baco e outro refrão avassalador de Luccas Carlos é empolgante e gostosa. Apesar de, no fim de seu verso, BK aparentar sofrer de asma e crises severas, e mais uma vez, ser impedido de regravar.
Planos (com feat obrigatório de Luccas Carlos) é um love song e Jovens começa com uma versão brasileira surpreendente de gucci gang, e francamente, relata o ouro da juventude. Com a swingueira que brotou em Titãs, Bkrissy Kris vira completamente o interruptor para o lado black music, num naipe cheio de boogie, chamado Deus do Furdunço, afinal, a madrugada carioca ama ele.
Um feat família, com D2 e Sain vem em sequência. Falam é desnecessária e memorável ao mesmo tempo, pra mim, isso configura genialidade, aliás, configuraria, já que a genialidade de verdade vem no fechamento do álbum. Correria (Remix), com participações de Akira -que vem atiçando desde 12 faixas atrás- e Drik Barbosa é sensacional, BK voando baixo, Akira brilhando como um astro e Drika fazendo com que os dois pareçam fracos.
Defeituoso e até tal ponto genial, Gigantes é um álbum que numa cena de rap mais talentosa, não teria metade do hype, mas na conjuntura nacional pode parecer uma masterpiece. Todos os beats são de maestria tremenda, com variedade suficiente pra não soar tudo igual, com variedade suficiente para não soar tão coeso quanto se espera de um disco.

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Author: Andre Dourado

Rap Nacional é merda e eu sou o especialista das fezes