[i ai sews lĩgʷistʃiku du Rɛpɪ], tudo beleza? Que foi? Não entendeu nada do que eu disse? Perdão meu consagrado, é que hoje eu vou tentar explicar o porquê parece ser “mais difícil” rimar em português do que em inglês, e para isso irei utilizar da Linguística, essa maravilhosa ciência que estuda e entende a língua como um sistema, onde o objeto de estudo é modificado pelo ponto de vista.
Você já teve a impressão, transitando entre o rap gringo e o rap nacional, de que os MCs americanos (ou britânicos) possuem mais facilidades nas rimas, e estas são mais elaboradas ou, ao menos, mais plásticas que os nossos representantes tupiniquins? Pois bem, isso pode ser explicado. Não vamos nos aprofundar muito, apenas o suficiente para vocês começarem a ter uma noção do que está pegando, vem com o pai.
Primeiro, vamos fazer o recorte do nosso objeto de estudo, a rima. Se olharmos para a crítica literária existem vários tipos de rimas, as consoantes (talvez conheçam como perfeitas), as toantes, aliterantes, as pobres, ricas, raras, esdrúxulas e por aí vai (é material pra um post exclusivo sobre isso), porém, aqui nós vamos simplificar um pouco as coisas, não só para facilitar o entendimento, mas também porque, devido à oralidade do rap, mais do que como elas são escritas, o foco está em como elas são faladas.
Na Linguística, entendemos a rima de uma forma um pouco diferente, ela faz parte da estrutura silábica (sim, é daí que surgem as multissilábicas do ano lírico). Dá uma olhada nesse modelo que representa a estrutura de uma sílaba:

É simples, se liga: Onset é o Ataque Silábico, caso ocorra, é (são) a(s) consoante(s) antes da vogal; na Rima temos o Núcleo, que, obrigatoriamente, deve ser constituído por uma vogal; e a Coda (cauda), que, caso ocorra, é (são) a(s) consoantes(s) depois da vogal. Vamos identificar algumas das diferentes possibilidades silábicas no exemplo abaixo, onde o marcador azul é o Ataque, amarelo o Núcleo e verde a Coda:

Nas primeiras duas linhas da faixa “Aventureiro”, Ogi rima apenas uma sílaba, “lar” com “jar”, notem que, neste caso, a igualdade sonora no ataque silábico em azul não importa para a eficiência da rima, desde que o núcleo em amarelo e a coda em verde sejam iguais. Podemos concluir que, o Ataque Silábico não é obrigatório na execução de uma rima.
E a Coda? Ela faz parte da Rima, então ela é necessária, certo? Também não. A Coda faz parte da Rima porque ela ajuda a vogal a rimar com mais frequência, mas ela não é necessária também. Passando para as próximas linhas do mesmo exemplo, Ogi irá rimar duas silabas, “ka” com “qua” e “ze” com “se”. Vemos que em nenhuma dessas sílabas existe uma Coda (demarcada pela cor verde nas anteriores), em compensação, os Ataques e os Núcleos rimam com seus respectivos semelhantes.
Ou seja, para se executar uma rima minimamente bem tudo é uma questão de balanceamento. Com mais frequência, usam-se das vogais no Núcleo e das consoantes na Coda, caso a Coda saia de cena, as consoantes no Ataque passam a ajudar as vogais. Notou um padrão aí? Então, o que realmente é importante? Qual o fator comum que nunca pode faltar? SIM, isso mesmo, viu? Você já é um Linguista! O que importa são as vogais!
Tendo isso em mente, vamos comparar a estrutura vocálica do inglês e do português. O inglês, como muita gente curte falar, é uma língua econômica, rápida, isso quer dizer que as palavras tendem a ser curtas, várias delas monossilábicas. O português é o oposto disso, é uma língua silábica, temos palavras grandes, de várias sílabas. Isso quer dizer que no inglês o papel de diferenciar uma palavra da outra é da vogal e, para tal, é necessário um número bem maior de vogais, que, em consequência disso, terão diferenças sonoras mínimas. No português não, para diferenciarmos uma palavra da outra usamos outros recursos, dentre eles o de acrescentar mais sílabas em nossas palavras (concatenando afixos), por exemplo. Isso impacta nas nossas vogais, temos um número menor de vogais e suas diferenças sonoras são mais claras. Lembrando que estamos falando das vogais enquanto som, não enquanto representações gráficas!
Resumindo, no inglês temos muitos sons vocálicos que distinguem significados de palavras, no português temos poucos sons vocálicos, pois, nossa língua se utiliza de outros recursos para criar palavras diferentes. Quer ver como isso se aplica? Se liga nesses exemplos:
“South Beach bitch and I tan line stupid” –  Lil Wayne: Goulish (Pusha T Diss)
“I brought sand to the beach cause my beach is better” – Jay Z: Beach is Better (Interlude)
No primeiro verso, Lil Wayne rima “bitch” com “beach”, são exemplos ordinários, mas que caem como uma luva para o que estamos debatendo. São duas palavras curtas, praticamente idênticas e de sonoridades muito próximas, o que vai diferenciá-las são as vogais. Esqueçam as letras escritas, estamos falando dos sons, neles a vogal em “bitch” é reduzida, representada foneticamente pelo símbolo [ɪ]. Já em “beach”, apesar de graficamente termos duas vogais “ea”, pronunciamos um único som de uma vogal mais “inteira”, foneticamente representada pelo símbolo [i].
Jay Z, no segundo exemplo, brinca com essa diferença mínima. A semelhança entre os sons é tão evidente que ele nem se dá ao trabalho de mudar a palavra, ele rima a mesma palavra esperando que o contexto de sua música cause a diferença de significado, isso é foda demais.
O inglês está cheio de situações como essas, onde temos sons vocálicos com diferenças mínimas mudando o significado total da palavra: “dead” e “dad”, “cot” e “caught”, “full” e “fool”;
É muito difícil afirmar algo 100% na Linguística, porém, diante da abordagem que escolhemos, podemos teorizar um pouco aqui. Tudo isso para dizer que, se a vogal é tão importante para a Rima, e, no inglês, temos um número maior de vogais com sons muito semelhantes, e estes, por sua vez, possuem o importante papel de diferenciar o significado das palavras, então sim, talvez possamos dizer que existam mais facilidades de rimas no inglês.
Para finalizar, essa fonodiversidade nas vogais do rap em inglês saem do óbvio de acordo com a técnica empregada por cada MC. Explorar esses sons fazendo rimar palavras que em outros dialetos/idiomas não rimariam é o desafio maior. Veja o exemplo do Giggs, rapper britânico, na música KMT do Drake:

Tente ler as rimas destacadas como se estivesse lendo algo em português (ou até mesmo em inglês americano). Não rimaram, certo? Agora vai lá escutar o som e volta aqui, eu espero. Elas rimam! Vou colocar as mesmas linhas aqui, só que desta vez, com a última palavra de cada uma delas transcrita foneticamente:

Separei por cores os sons iguais, note que ele consegue rimar três sons vocálicos diferentes para estas três palavras diferentes, algo impossível para o português, ou até mesmo, para o inglês americano, devido a diferença dialetal. O que mais me chamou a atenção quando tomei conhecimento desse exemplo, é que o Giggs usa sons que nós usamos aqui no português. A diferença, o pulo do gato, está na possibilidade dele brincar com estes sons e os sons que se aproximam deles e mesmo assim manter o valor semântico de cada palavra, isso porque, como vimos, as fronteiras sonoras das vogais do inglês são muito mais tênues. Então, não vai pensando que é só sair por aí mudando sons vocálicos do português que você acha parecido. Além de ser o cafona do forçado, vai correr o risco de criar palavras novas que só fazem sentido na sua mente de ano lírico.
Po, eu acho que é isso. Me digam se vocês gostaram, se acharam muito difícil ou confuso, se é pra continuar com essa temática Linguística/Rap e quais assuntos nessa pegada vocês gostariam de ler. Compartilha com seus amigos se você também caiu no click bait. Hehehe
[tʃaw]