Cole foi um dos pilares da minha adolescência. Quando Born Sinner saiu lá em 2013, eu pouco tinha ouvido coisas dele até “Power Trip” me acertar em cheio. Descobri o mesmo por causa do Drake, outro que encheu minhas tardes em escolas de tempo integral do governo com muita sofrência de um “Take Care” jamais esquecido. Eram dias de luta, dias de glória. Lembrar desses tempos é simplesmente lembrar de várias sonoridades dentro do Hip Hop que me marcaram até agora, e ouvindo “KOD”, cai a ficha de que estou ficando velho, e o Cole, também.
Não acredite em tudo que ler ou ouve por ai de críticos emocionados, “4 Your Eyez Only” não é nada excelente, é no mínimo bom e esquecível em suma maioria. Quando eu ouvi esse CD, eu pensei, “é só isso?” e, de fato, era só aquilo mesmo, nada espetacular. Desde 2016 para cá todo meu hype ou atenção que eu dava aos lançamentos do Jermaine foram simplesmente jogados de lado, a verdade é que a crítica muitas vezes saturada que vemos em memes de páginas trap ou até mesmo de grupos de membros conceituais é que o cara tava ficando chato, e tem como negar? Mesmo os pontos abordados terem um certo tipo de coerência, o moralismo é de cair o cu no chão. Os antigos sons eram massa porque não soavam nada indulgentes, saca? A perspectiva era trazer histórias de um determinado mano no meio de um bairro violento que não queria pagar de gangster, muito menos de comedor ou podre de rico. O bagulho era simples, e depois de Forest Hills Drive, a necessidade de se colocar num patamar à nível Kendrick foi o que prejudicou ele – muito desenvolvido pela fã base e até mesmo críticos.
KOD é um disco muito bom, ponto. Muito melhor que “4 Your Eyez Only”, e traz uma desconstrução que tem começo, meio e fim. É um boa pedida mainstream, e por que eu acho isso? Ora, o conceito central de KOD gira em torno de VÍCIOS e não sobre como moleques de 17 anos cantando trap são chatos, entenderam? O conceito pode soar clichê, e é mesmo, mas não é ruim. Nem todo clichê é ruim, cacete. Se a desculpa fosse só a temática clichê, eu lhes pergunto, por que o álbum do Migos é algo aceitável e esse não? A resposta é que o entretimento gira em torno de públicos alvos, se você não é desse grupo, não enche a porra do saco. Eu evolui, aprendi que todo mundo tem razão enquanto não encher a porra do meu saco, além do mais, não tem como discutir com d e s c o l a d o s.
Todo o disco gira em torno de um conceito que mira na essência patológica do vício, seja em drogas ilícitas, álcool (tema este que ele aborda falando sobre sua mãe), internet/mídia e outros. O foco é a pré interlocução de ‘ajuda’ para jovens que estão inseridos nisso, e claro, os ‘shots’ em mumble rappers é algo que não iria passar em branco visto as inúmeras postagens “Fuck J.Cole” machistas e homofóbicas em demasia. KOD não soa chato ao meu ver porque ele não trás uma camada de julgo como ele trouxe em outros momentos, por exemplo. Ele sempre evoca o outro lado da moeda com seu alter ego chamado kiLL Edward, que é um cara viciado e inserido dentro de uma sociedade racista, jovem e bombardeada por merdas de todos os lados. Crianças querem se divertir sem ter uma reflexão mais aprofundada sobre algo, poucos querem chegar numa festa e ouvir Chico Buarque, eles querem ouvir MC Lan. Poucos jovens querem passar em branco em certos momentos felizes da vida sem o uso de alucinógenos, e esse é um fato que o Cole passa longe de criticar e vê como normalidade – e o que é de fato. O x da questão foca mais na ideia disso como refúgio enquanto aparato para a dor ou até mesmo camuflagem de uma vida desestabilizada em casa. Me digam, o que há de tão chato em falar disso? Ou, refletir um pouco sobre? Vocês acham mesmo que é massa encher o rabo de xanax e ter overdose? O conceito atira em como a inversão de valores, muitas vezes influenciada pelo rap e mídia, ajudam nisso. Moleques de 17 anos falando e ostentando só são o pico do Iceberg.
KOD é bom porque não achei uma faixa ruim nesse cd, todos trazem uma ótima produção e flows que variam. E há, o bagulho da delivery é algo que chamou bastante atenção. Muito se foi criticado que o Cole não teria caneta para variar em stop and start flows ou mumbles variantes de refrões repetidos em cada estralho de bateria, e isso rola muito aqui. O que ele fez foi tornar algo menos maçante para a galera que escuta muito trap, fazendo com que eles ouvissem sua mensagem de forma menos hostil, então, quando vocês forem ouvir KOD, Motiv8 e ATM, vocês vão perceber isso. ATM é uma parada doida porque mesmo tendo uma questão subliminar, não há nada de desrespeitoso porque ele QUERIA falar sobre aquilo também, fugindo muito de uma questão moralizadora que tanto falam. O alter ego dele é algo que poderia ser dispensado, mas se tá lá podemos fazer nada. “BRACKETS” é uma track que gostei muito porque me lembra muito o Cole de “Truly Yours” e as linhas que ele cospe sobre como o Estado norte americano não faz muita coisa com o dinheiro arrecadado dos impostos recebidos, que ao invés de ajudar, enriquece empresas bélicas. Isso foi regozijante para meus ouvidos.
KOD é simples, mas é um simples bem melhor que 4 Your Eyez Only. KOD é um disco em que o mc tenta trazer uma ‘descontraída abordagem séria’, com uma linguagem jovem. E quem reclamou, é porque sabe que seu recorrente MC D E S C O L A D O de playlists vai estar no Love & Hip-Hop daqui à 5 anos, e eu nem critico, tenho vários na minha que sei que não duram nem 2 anos.
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