Ano passado foi talvez o primeiro grande ano do rap nacional no que diz respeito ao mainstream de fato. Tivemos nomes do nosso cenário nas rádios, nos grandes jornais, na televisão e se eu for alencar todas as mídias, irei perder tempo. Muito se foi discutido se tudo o que foi dropado fez juz ao chato papo de ano lírico, e na minha humilde opinião, nem chegou perto. Porém, é indiscutível que saiu sim coisas legais e uma dessas coisas é o ótimo “Dovahkiin” do rapper paulistano Eloy Polêmico. Lançado no mês de setembro de 2017, mais precisamente no dia 24, Eloy nos mostrou um disco muito extenso liricamente, que se colocado em discussão numa mesa de bar, pode-se trazer várias ponderações e teorias pelo seu inteligente leque de temáticas filosóficas, pop culturais, sociais e políticas. O Estranho pediu essa, então cá estamos, meu mano.
“Dovahkiin” ou “Criança caçadora de sonhos”, trás várias perspectivas de interpretações porque, além de trazer uma narrativa bastante introspectiva, ele trás ponderações que permeiam muito na filosofia, ou mora, como já dizia Caetano. Pra quê falar de amor e dor? A verdade aqui é discutida em vários pontos, muitas vezes claro ou até mesmo entre os panos e é em autores como Nietzsche que Eloy se debruça para trazer essas reflexões. Em 1896, esse autor alemão lançou para a humanidade um livro polêmico, muitas vezes contestado, que se chama “Sobre verdade mentira no sentido Extra-moral” e a forma como ele discute a invenção da verdade é algo que, se trazido como um meio de interpretação desse disco, podemos angariar várias dúvidas e talvez conclusões.
Na música “Jardim Suspenso”, música esta a qual foi a primeira que ouvi dele, há vários jabs a um mundo já pós-modernista mas que mistura um racismo e opressão capitalista com uma moral falida, coisa que Nietzsche já trazia críticas em Ecco Home. Críticas a si mesmo, ao carinha da revolução não televisionada e ao consumismo, pique Tyler Durden, foi pontos que me chamaram bastante atenção.

Nova era contamina, é fácil entrar na dança
Guimê de Lamborghini, uns quilos na balança
Mas até que ponto é necessário?
Quanto mais, melhor?
Puta cultura de otário!
(“Jardim Suspenso”)

As participações aqui são boas, alguns até excelentes demais como o TH em “Minha Vez” e o Estranho em “Morfeu”. Vivi Âmbar, Joe Sujeira, Dro, El Madarim, 2pe, Rômulo Boca, Surgem, DC Mc e Ramiro Mart mandam muito também. Os refrões apresentam muitas discrepâncias uma das outras, umas de boa qualidade, outras não. “Ô Nega” é uma boa track, mas destoa muito de todo o conceito do disco e eu achei muito solto na tracklist, “Morfeu” é algo bastante surpreendente porque há um diálogo mitológico grego com quadrinhos do Neil Gaiman que me fascinaram.
Com críticas contundentes que mantém um grande ritmo de narrativa do começo ao fim, “Dovahkiin” é um dos melhores discos de rap nacional em 2017 e um dos mais subestimados com certeza. Era para isso estar entre os cinco melhores discos em grande parte das listas que li por ai, mas tudo bem, não me estresso por isso. Moralismo, mitologia grega, filosofia, política, romance,historicismo.. esse disco é rico, culto e conciso quando quer. Como já dizia o Eloy: “Gente daqui só tem um livro, mal sabe ler e na rua vão apedrejar você”. Entretanto, não nós, nós te amamos Eloy.
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