Bom dia só pra quem tá puto com o regulamento do Campeonato Carioca. O objeto de análise de hoje é o 2º álbum do mineiro Djonga, um dos nomes mais populares no momento atual da cena. Quem acompanha as nossas resenhas sabe que o “Heresia”, disco anterior do rapper, não agradou a cúpula e, principalmente por isso, não havia muita expectativa da minha parte em relação a “O Menino Que Queria Ser Deus”. Felizmente, eu queimei a língua: foram muitas surpresas positivas no álbum, e o Djonga, ao mesmo tempo que mandou um grande “foda-se” a todos que desgostaram do seu trabalho anterior, parece ter absorvido e trabalhado em cima de todas as críticas técnicas que recebeu em relação ao “Heresia”. Acompanha a review que você pega o raciocínio.
Em questão de caneta, o Djonga deu um salto. Da primeira a última faixa, não houve um único verso abaixo da média, e essa consistência foi importante pra que o conceito do álbum continuasse bem amarrado ao decorrer das faixas. A métrica dos versos está muito bem encaixada, de forma que a sonoridade de uma linha nunca destoa da linha seguinte (em versos anteriores do Djonga isso acontecia com certa frequência). Os flows também tão bem adequados a cada produção e, considerando que o álbum contém beats dos mais variados tipos, a versatilidade musical do rapper ficou evidente. Os momentos onde ele usa de uma levada mais cantada pra “preencher” espaços que ficariam vazios na métrica são bons exemplos, e que mostraram também uma boa afinação; aliás, a gente tem que dar moral quando merecido, né?! A gritaria do álbum anterior, tão criticada por nós, deu lugar a uma consciência na hora de usar os tipos de entrega nos momentos adequados, ou seja, rolou drama, autoconfiança e berro, mas nas horas exatas que tinham que estar presentes. Na escrita propriamente dita, mais progresso: o Djonga, que sempre se utiliza de comparações nas punchlines, soube alternar mais a forma de construí-las sem que se tornasse repetitivo. As metáforas e os esquemas de rima também tornaram-se mais frequentes e de maior qualidade, e o rapper soube balancear bem os momentos onde precisava ser mais técnico dos que podia abrir mão do capricho pra expor de forma mais clara o emocional. Músicas nas quais a caneta do Djonga me chamou bastante atenção foram a “Corra” (que foi a faixa que particularmente eu mais gostei), a “Ufa” e a “1010”, em especial o 2º verso, no qual notei referências à construção lírica e métrica do BK em alguns sons, mas sem que houvesse cópia ou algo do tipo.
A produção do álbum, apesar de recorrer a várias sonoridades, é bastante coesa, e isso pode ser atribuido tanto à presença de poucos produtores (o Coyote assina a maioria dos beats) como também à capacidade do Djonga de deixar claro a sequência do conceito do disco no decorrer das faixas. As bases dialogam bastante com os temas e com a emoção que o rapper quis passar em cada música de forma particular. Da 1ª à 4ª faixa, os beats puxam pra um trap quase que minimalista e não muito agressivo, com os hihats marcando bastante. A partir daí, os beats se tornam ainda mais suaves (com exceção do funk da “Estouro”), sendo possível encontrar boombaps e até uma faixa com o instrumental mais orgânico, a “De Lá”. O álbum é mais musical que seu antecessor, contando com a presença de bons refrões, a maioria executados pelo próprio Djonga. Os feats também acrescentaram bastante às faixas, sendo destaques o ótimo verso do Hot na “Solto”, os vocais da Paige em “Corra” e o verso da Karol Conka na “Estouro”, na qual ela compartilha o flow com o anfitrião (eu amo quando fazem isso bem feito).
Num apanhado geral, o Djonga disponibilizou um belo álbum em todos os quesitos. Conceitualmente, há início, meio e fim muito bem delimitados pelos temas das músicas e também pela sequência dada nas produções. Como se trata de uma obra com caráter bem pessoal, é preciso que a lírica do artista ponha o ouvinte bem a par de tudo, e em “O Menino Que Queria Ser Deus”, o rapper faz isso muito bem, colocando quem escuta o álbum não só na sua pele, como também na de todos os personagens presentes na história, usando uma boa imagética para tal. Além da já citada semelhança lírica com o BK na “1010”, notei também que a última faixa o álbum, “Eterno”, tem alguns pontos em comum com a faixa “Imortais e Fatais” do baiano Baco, que encerra seu álbum “Esú”, mas novamente acredito que houve no máximo uma referência (por falar em referência, às feitas aos Racionais ainda se encontram bem nítidas por todo álbum, assim como em seu antecessor). Particularmente, fiquei feliz em ter queimado a língua ao duvidar do 2º álbum do Djonga, o cara se mostrou um artista com grande potencial de evolução ao mesmo tempo que consegue manter o carisma que o tornou tão popular. E é isso, não deixem de acompanhar nossos textos, valeu!

2 Replies to “Review Nacional: "O Menino Que Queria Ser Deus" por Djonga

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.