Oi, porra. Carnaval aí torando mas seguimos firmes na missão, e como estamos devendo várias reviews sobre álbuns do ano passado, hoje o texto vai tratar de um dos álbuns mais impactantes de 2017, o 4:44. Indo totalmente contra as tendências da cena e contra o seu próprio padrão musical, o Jay-Z protagonizou o pedido de desculpas mais elaborado dos últimos tempos em seu último disco. Num álbum enxuto, de produção assinada exclusivamente pelo No I.D. e com letras de caráter bem íntimo, o Jigga novamente se tornou tema de quase todas as conversas sobre rap desde o lançamento do 4:44. Sendo a obra curtinha, o texto vai ser no esquema faixa a faixa. Brota! 
A 1ª track já veio bem polêmica, começando pelo título: “Kill Jay Z” chegou dando orelhada no próprio Jigga, num belo confronto de um homem amadurecido com seu ego gigante. A faixa começa sem intro nem nada, já com o beat no talo e as barras vindo, e é interessante a forma que o Jay consegue ao mesmo tempo ser agressivo e não se demonstrar emocionado (no caso, o Jay emocionado é justamente a entidade que ele tá condenando nas letras desse som). Sobram linhas até pra outras figuras da cena, como Kanye e Future; muitos, inclusive, interpretaram estas como disses, mas pelo tom da track, me soou mais como sermão de amigo velho do que ataque. O beat da “Kill Jay Z” é outro destaque da track: um loop marcante de soul somado à bateria bem marcada dá o tom de impacto que a letra pedia.
A segunda faixa é um dos destaques do ano passado, e possivelmente uma das melhores do álbum. Em “The Story Of OJ“, o Mr. Carter dialoga (sim, a letra é praticamente uma ideia trocada com quem ouve) sobre a forma que os negros norte-americanos lidam com o dinheiro. Tudo cumpre perfeitamente com seu papel: a caneta do Jigga é certeira e o rapper esbanja técnica, além de interagir com o ouvinte. A produção dispensa comentários: sample lindo da Nina Simone, muito bem recortado e que mais uma vez conseguiu transparecer toda a mensagem que o Jay abordou na letra.
Continuando na ordem do “4:44”, chegamos na “Smile”. A terceira faixa transforma um som do Stevie Wonder num trap bem suave, e apesar da produção soar estranha em alguns momentos (como por exemplo na voz abafada do Jigga no refrão, nos hi-hats monótonos e em alguns ruídos que “vazam”), a caneta do Jay sobressai bastante. A track trata da relação do rapper com sua mãe, especialmente a partir do momento em que esta assume sua homossexualidade. O cara chega rimando muito, e essa é uma das músicas na qual a sua busca por maturidade fica ainda mais exposta. Pra combar com tudo isso, o outro ainda conta com um depoimento bastante fofinho e emocionante da mãe do Jigga.
A quarta track é a “Caught Their Eyes”, uma das que eu tinha mais expectativa ao ver a tracklist por causa do feat do Frank Ocean. Ao ouvir o som, é indiscutível que não é a performance mais marcante do Frank, mas o refrão dele casa bem com o clima despretensioso da música, e não chega a decepcionar. Nessa faixa, o Jigga pondera sobre a indústria musical e a forma como os artistas são tratados nesse meio. Novamente, há alguns deslizes técnicos: em certos momentos a métrica não é fielmente cumprida (algo não muito visto na obra do Jay), mas mesmo assim há umas punchlines bem inteligentes distribuídas nos versos, e a track como um todo fica fechadinha.
A próxima a tocar é a faixa-título, outra das mais comentadas do ano passado até agora. Nessa confissão/pedido de desculpas, o Jigga expõe todo seu drama conjugal rimando demais, empilhando sílaba em cima de sílaba em uma exibição lírica impecável. Nos três versos, o rapper mostra grande capacidade de introspecção e detalhismo, e o beat contribui demais pro clima de desculpas da faixa. Provavelmente qualquer pessoa chifrada voltava pro ex se o pedido de perdão fosse a “4:44”.
Seguindo com o álbum, chegamos na “Family Feud”, uma das minhas preferidas. Em uma sacada inteligente, o Jigga trata de problemas “familiares”, tanto no âmbito pessoal como entre a comunidade negra dos EUA. Em outra mostra de sua caneta espetacular, o Jay sai rimando 4, 5 sílabas como se fosse muito fácil, e acelera e desacelera a levada com a mesma tranquilidade. O beat é bonito demais: um sample de coro bem marcante e que em alguns momentos é emulado pela Beyoncé, deixando tudo em casa literalmente.
A sétima track é a “Bam”, que é possivelmente a música do álbum com mais cara de banger. Contando sua jornada até o sucesso com a ajuda do Damian Marley, o som conta com influências jamaicanas não só no feat, como também na produção (inflamada por metais e um tempo mais dançante) e na própria maneira do Jigga rimar, usando muito do dialeto da ilha e das referências à musica caribenha. O único porém em relação à “Bam” é que a sua sonoridade destoa muito das demais faixas do álbum, tornando-a uma espécie de alien no “4:44”. Individualmente, porém, ela funciona muito bem.
“Moonlight” é a oitava faixa do álbum, e nela o Jay faz uma piada bem maneirinha no refrão, relacionando o sample de “Fu-Gee-La” com o filme La La Land. O clima irônico continua nos versos: o rapper reclama do caráter repetitivo que o rap está tomando nos tempos atuais, e usa um flow bem debochado e repetitivo pra isso. Por esse motivo, talvez, a faixa não tenha tento valor de replay como as demais, mas ao ouvir na sequência do álbum, “Moonlight” encaixa muito bem.
A nona faixa do “4:44” é a “Marcy Me”, outra das minhas favoritas do álbum. O No I.D. garimpou um sample português lindo e transformou num beat bem calmo, o qual o Jigga usou pra escrever de uma forma bem nostálgica. Fazendo boas referências ao Clan e ao Biggie (novidade né), o rapper relembrou seus velhos tempos em Bed-Stuy, em outra exibição lírica impecável. Além disso, apesar da saudade dos velhos tempos, o Jay também mostra apreço pela nova geração, mandando um salve pro Lil Uzi Vert (inclusive escutem Card – Eu Chorei Ouvindo Lil Uzi). Enfim, a “Marcy Me” é uma das tracks mais bem feitas do álbum, em todos os quesitos, e seu tom de saudade combina bem com o fim do álbum. Destaque pro The-Dream gastando a onda no final.
Por fim, o Jigga fecha seu álbum com “Legacy”, uma track bem pessoal na qual o rapper discute sobre seu legado na família e na indústria da música. Além de ter a fofinha da Blue Ivy na intro, o James Fauntleroy chega bem demais nos vocais de apoio, combinando muito bem com o sample de soul escolhido. Em questão de lírica, a caneta do Jay não decepciona na últma faixa do “4:44”.
De uma forma geral, o rapper acertou bastante em todos os quesitos de sua obra: sua mudança de postura em relação ao jogo soou mais original do que as suas tentativas anteriores de soar como os artistas mais novos; a lírica, em sua maioria, se manteve firme; e as produções, apesar de pequenos deslizes, acompanharam bem o conceito e o ritmo impostos pelo Jigga. “4:44” é um disco muito bonito em sua mensagem e muito bem executado pelo artista, que ousou não só desconstruir a si mesmo como indivíduo como também ir contra as tendências da cena sem ter medo de ousar. Houve bem mais acertos do que falhas, e o Jay-Z mostrou que ainda é um gigante em questão de relevância no jogo. No mais, fico por aqui, aguardem mais reviews porque tamo voltando com tudo. Até!

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