IAE SEUS PUTOS DO CARALHO, saudade de escrever nesse sítio da internet brasileira, onde dou minhas opiniões fecais sem retorno financeiro. Como tá aí no título, quero falar do disco do momento, candidato à disco do ano e atual parasita do meu 4G, que não sai do repeat: Esú, o mais novo disco do rapper baiano, Baco Exu do Blues.
Pra começar segue o release oficial do disco, que achei um texto maravilhoso e segue na integra pra quem ainda não teve a oportunidade de ver:
“Esú” traz a história de um personagem em transição, que passa por diversas provações, da depressão ao gozo. Autoestima, individualidade, onipotência, luxúria, sincretismo e empoderamento negro, são temas recorrentes no álbum. “Metade homem, metade Deus e os dois sentem medo de mim”, cita Baco na faixa que leva o título da obra, mostrando o encontro da fragilidade divina e a força humana. A produção musical do disco ficou à cargo de ‘TAS’, no ‘Cremenow Studio’ e a criação dos beats por ‘Nansy Silvvs’, exceto a faixa Intro, que tem a base feita por ‘Scooby Mauricio’ e scratches de ‘KL Jay’ (Racionais MC’s). O resultado dessa junção é apresentada em 10 faixas que proporcionam uma viagem sinestésica, passando pelas ladeiras de Olinda, com o batuque do Maracatu, pelo carnaval de rua com o choro da guitarra baiana, até as nossas matrizes africanas, com cânticos em Iorubá e batuques dos atabaques do candomblé.
Bom, dadas as devidas apresentações, vamos às notas:
Vocês sabem que sou um admirador de arte e em especial a fotografia, então como de praxe, vamos começar pela capa, E QUE CAPÃO DA PORRA™, desde que foi anunciada pelo próprio Baco no instagram? a capa do disco têm gerado um burburinho danado, questionando sobre desrespeito religioso e etc., não vou entrar no mérito do certo ou errado (deixo vocês se matarem nos comentários), mas ela cumpriu o seu papel artístico, interpretativo, crítico e conceitual, sim tudo isso e eu explico: a capa é extremamente artística, interpretativa e conceitual, pois, é uma peça de arte magnifica que foi capaz de trazer à luz uma discussão da resistência das religiões afro-brasileiras fronte ao cristianismo, ao  mesmo tempo em que se liga ao conceito do trabalho que explora a dualidade da identidade da personagem no álbum, que ora se vê como um Deus, ora humano. E tudo isso agradando a muitos ao mesmo tempo que outros torciam o nariz aos brados de “desrespeito religioso”, em suma, tudo que a arte deve fazer, mas em um país que se joga pedras em uma criança, por ter uma religião diferente da sua, é preciso coragem para riscar o “J” e “S” em Jesus para encontrar Esú, inclusive creio eu que a capa seja uma introdução, antes da Intro que prepara o ouvinte para o que vai encontrar no disco.

nt: Vou comentar mais sobre as artes de cada track, (se) assim que o físico sair, alias, se alguém tiver o livro Laroyé do Mario Cravo Neto, manda pra noiz.

Musicalmente o trabalho é impecável, extremamente coeso, linear e muito bem montado. Como diz no release, Baco nos apresenta a um personagem em duas frentes, com qualidades humanas e fragilidades divinas, por todas as 10 faixas são exploradas as peculiaridades multifacetadas que todos nós possuímos, (fazendo um paralelo com isso, ouça Sem Cortesia, do Síntese, me ajudou de alguma forma na compreensão desse disco) desde alegrias simples à profundas depressões.
O álbum é genuinamente brasileiro, com uma sonoridade que em nenhum outro lugar acredito que seja possível reproduzir, a produção está on point, nenhum beat destoa, mesmo assim não ficam repetitivos, Nansy Silvvs acertou a mão em todas, deixou com a cara do Brasil, de Salvador em todos os aspectos, explora as raízes e as origens da musicalidade que temos aqui, referencia a história dos pretos por aqui e toda a carga cultural desenvolvida desde a África, passando pelos navios negreiros, a repressão e demonização das religiões afro-brasileiras chegando no sincretismo religioso junto ao catolicismo (sacou a capa ?!). MANO TEM UM PONTO DE EXÚ COM TRAP NESSA PORRA, E É MARAVILHOSO.
Quanto à montagem, como disse anteriormente o disco é perfeito, na minha interpretação (pode não ser a de vocês, mas respeito que vocês estejam errados) a intenção de Baco foi narrar a trajetória de um ser complexo que possui uma ambiguidade entre humanidade e divindade, na primeira parte do trampo, Baco introduz o personagem, faz uma cerimônia de recepção ao seu divino, e vai desenvolvendo a personalidade e peculiaridades até o Interlúdio, que é utilizado com dois propósitos, para a parte humana descreve os distúrbios dos males da mente, de ter que lidar com as pressões da vida e as cobranças de ser um rapper promissor e de entregar tudo que potencialmente pode realizar, por outro lado a divindade por estar “presa” a existência humana e não poder realizar todo o potencial de um Deus, culminando em um suicídio, que representa o renascimento e aceitação de coexistirem com suas dualidades, após En Tu Mira, vemos uma mudança de tom no álbum, que passa a dar mais ênfase aos sentimentos e sensações que as descrições e comparações que víamos anteriormente, citando raiva, frustrações, liberdade e amores.

Não entra na roda punk sem pedir pra Exu
Não entra no mar sem pedir pra Iemanjá
Desrespeite a fé dos pretos, saiba porque eu sou Exu
Meus irmãos são mundos vi vários rodar

As rimas de Baco estão muito bem feitas, uma coisa que me incomodou, somente nas primeiras ouvidas, é a dicção, mas após um tempo não se percebe mais e para de incomodar, questão de costume, a caneta está bem afiada, com referências coesas, casando muito bem com a produção que citei mais acima. Sobre a mixagem e masterização, não há o que reclamar, os graves batem nas caixas, fones, falante de carro, muito bem feito.
No geral, o disco é muito bem construído, dá a impressão de ser pensado nos mínimos detalhes, Baco entrega aqui tudo que foi possibilitado pela Sulicídio e o prometido “ano lírico”, com um debut que explora toda a história e referencial de uma cultura rica, não repete os erros que muitos apontaram em singles anteriores e traz uma caneta muito mais afiada que a apresentada no EP OldMonkey, esse trampo tem tudo para ser um clássico e se entendido e absorvido pela cena, pode influenciar a forma que a o rap nacional desenvolve e apresenta os trabalhos.
Com todas as evidencias apresentadas, só me resta o veredito, parabéns Diogo Moncorvo, o primeiro a receber meus 5 shits e junto com Don L e nILL, apresentou um dos melhores trabalhos do ano.
Por hoje é só mes ami. Até a próxima.